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domingo, 5 de fevereiro de 2012

Os Melhores De 2011 - Encerramento

Encerramos nosso especial com os melhores de 2011, agradecendo todos que participaram e nos desculpando por todos os blogs e textos maravilhosos que, infelizmente, ficaram de fora...

Aproveitamos para indicar blogs incríveis que nós do Pira For Kids aprovamos e que acabaram não aparecendo no nosso especial:










Projeto de Mãe








sábado, 4 de fevereiro de 2012

Os Melhores De 2011: Rita - Estrada Anil



Menina




Sabe, tem uma porção de gente falando da mulherada por esses dias. Coisas de comemoração; ou de luta, de panfletagem, sei lá. E aí olhei pro lado, minha flor, e pensei que você um dia também precisará lidar, do seu jeito, com essa mania que a gente tem de problematizar as coisas - que é algo muito bom, na maioria das vezes, você vai ver. E não que eu queira pôr carro na frente dos bois, mas me peguei imaginando você pelo mundo e este post é por isso.

Minha querida pequenina,

ainda vou dar um jeito de agradecer pelo tanto que você trouxe para a minha vida; vai ser difícil, porque é imensurável o impacto que sua presença no mundo me causa. Você me transformou e ainda que eu aceite com naturalidade que nem todas as mulheres do mundo vejam na maternidade um caminho viável, não consigo mais vislumbrar minha estrada sem você nela. Isso serve só pra mim, viu, cada mulher é única; mas me serve muito, inteiramente. É tudo você, sabe, seu sorrisinho, sua risadona, sua fala de menininha que ainda se esforça para acertar os erres, seu cabelo adorável, seus olhinhos - mesmo com lagriminhas que nos cortam o coração - sua corridinha, o jeitinho com que você conduz a mochila na rampa da escola, a leitura fingida, a boca cheia de farofa, o nado de bumbum, a cara enfiada na água, a boca de jacaré para escovar os dentes, a sorte no dominó, a concentração no cinema, o sono com o bumbum pra cima; também o choro falso, a birra, a teimosia, o prato rejeitado, o grito dentro do carro, a brincadeira proibida na escada. Tudo soma e faz minha vida mais espaçosa, torna os mistérios mais intrigantes (como pode...), tudo em você me faz maior.

Gosto muito de pensar, minha florzinha, que você vai crescer esperta para perceber a matrix e desafiá-la. Que você vai perceber ao longo do seu caminho que o mundo é muito complicado mesmo, mas que se a gente carregar no peito um coração bem largo e na cabeça um bom senso de justiça, dá pra fazer um tantinho de coisas boas. E que essas coisas boas podem ter dimensões variadas e imprevisíveis - podem levar à descoberta de uma estrela ou ajudar o vizinho - mas que ninguém sabe ao certo seu lugar no mundo nem o dia de amanhã, então toda gentileza vale a pena. Torço todo dia, minha pititica, para que você perceba bem cedo que você é o principal agente de sua vida; que perceba que terá à sua volta valores e medidas diversos e que selecionar o joio do trigo é uma arte das mais finas. Torço para que encare seus equívocos - porque eles são inevitáveis - como atalhos para seu crescimento e que nunca se esqueça de que a perfeição não existe. Torço muito para que você ame muito: ame sua existência, o privilégio de estar no mundo; ame seu corpo com as belezas, a saúde e os limites que ele trouxer porque ele abriga sua consciência e é seu veículo nesse mundo; que ame o mundo onde você vive e que cuide dele porque muita gente ainda virá depois; e, principalmente, torço para que ame as pessoas e perceba que ninguém sabe ao certo o sentido da vida, mas é bem razoável apostar que ele passa pela convivência harmoniosa com nossos semelhantes. E torço, com força, para que você nunca perca a capacidade de se maravilhar, porque o ser humano, meu amor, é capaz de coisas lindas, deslumbrantes. Não se acanhe: abrace o mundo, chore e gargalhe com verdade.

Sabe, Amanda, um monte de gente vai tentar definir você. Você vai perceber, espero, que alguns critérios são meio estranhos. Então sigo na torcida para que você sempre se permita refletir sobre o que realmente lhe cabe. E muitas vezes as concessões serão necessárias e isso não é necessariamente ruim; mas muitas outras vezes você não precisará mais do que a certeza de que seu bom coração é seu melhor guia. Vivo dizendo por aí que menina pode, sabe, minha linda. E pode mesmo, vá sem medo. Mas se um medinho pintar de vez em quando e ele demandar mais do que o que você tem à mão, conte comigo, minha flor. Eu posso até sentir mais medo que você, mas segurarei sua mão pelo tempo que você quiser.

Posso ter alguns palpites, mas na verdade não faço ideia de como será a mulher Amanda, tanto ainda pela frente. Mas a torcida está aqui para que você seja íntegra de coração, generosa e muito feliz. Todo o resto do script, meu amor, pode ser seu, se assim você quiser. 

***

E você canta assim:

"Escravo tijolos jogava pra chegar
Tira, bota, deixa ficaaaaaaaaaaaarrrrrrrr..."

E meu amor cresce.

***

E você se esforça assim:

"Predo. Não... Pêêê...do. Não... Pê-dro... Pedro!!" E o sorriso é maior que você e o brilho no olho é indescritível.

***

Mas sabe o melhor de tudo isso? Há uma infância inteira pela frente ainda. Por isso amanhã você vai jogar cartas com o mano e depois de amanhã vai para a escola vestida de fada. E eu vou enfiar meu nariz no seu pescoço. Aguarde.



(Publicado originalmente no Estrada Anil em 2 de março de 2011)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Os Melhores De 2011: Paloma - Peripécias de Cecília



Amamentação em público. De onde vem tanto recalque?

Não ando com tempo para ir muito além das minhas leituras diárias, então, quando alguém do meu blogroll cita um outro alguém, dificilmente eu clico lá para ler, sob o risco de perder meus preciosos minutos para fazer todas as outras coisas do dia a dia. Dito isso, tenho de dizer que fiquei surpresa um tanto chocada ao ler aqui e ali que há pessoas que se sentem invadidas ao verem uma mãe amamentando fora de casa.

Como se o peito fosse um órgão sexual primário, como se ele fosse exibido para o deleite dos passantes - e não para o bebê se alimentar e ser acolhido -, como se mães e filhos tivessem que viver confinados em casa, afinal praticam atos obscenos.

Gente, sinceramente, isso para mim é chocante. De onde vem tanto puritanismo? De onde vem tanto recalque? Eu até arrisco umas respostas, mas deixarei aqui as perguntas para provocar alguma reflexão em quem me lê hoje. Aliás, acabo de escolher o título do post.

Depois de expressar o meu sentimento, gostaria de citar trechos do livro "A Maternidade e o Encontro com a Própria Sombra", da terapeuta argentina Laura Gutman, que teve dois filhos em Paris (uma cesárea e um VBAC) e um em Buenos Aires (um PD). Para saber mais sobre ela e seu trabalho, clique aqui. Laura, para terminar de chocar os puritanos de plantão, compara o início da amamentação, momentos que requerem sim muita intimidade e conexão entre mãe e filho, ao sexo com a pessoa amada. Veja como e por que:

"Todas as mães, absolutamente todas, podem amamentar seus filhos. Em vez de falar de técnicas, horários, posições e mamilos, vamos falar de amor.

Amamentar nosso filho será simples se nos dermos conta de que é semelhante a fazer amor: no princípio precisamos nos conhecer. E isso se consegue melhor estando sozinhos, sem pressa.

Quando fazemos amor com o homem que amamos, não nos importamos com o tempo, nem se o coito dura mais ou menos de 15 minutos, se ficamos mais de um lado da cama ou no outro, se estamos por cima ou por baixo. Não nos importa se amamos várias vezes em uma hora ou se dormimos esgotados e abraçados um dia inteiro. não há objetivo, salvo o de nos amarmos.

Quando o bebê nasce, o reflexo de sucção é muito intenso. Como as palavras indicam, ele age sob o reflexo de procurar, encontrar e sugar o peito materno. Para isso, só é preciso que o bebê fique perto do peito. Muito tempo. Todo o tempo. Porque o estímulo é o corpo da mãe, o cheiro, o tom, o ritmo cardíaco, o calor, a voz, enfim, tudo o que ele conhece.

Como nas relações amorosas - e trata-se disso -, precisamos de tempo e privacidade."

Neste trecho específico, Laura trata do início da amamentação, aqueles momentos em que quase todas as mães sentem dificuldades e são (mal) orientadas por parentes e médicos a amamentar com horários regulares (geralmente de 3 em 3h), não ficar com o bebê no colo por muito tempo, restringir o tempo que o bebê fica no peito (10 a 15 minutos) etc.

Num trecho mais adiante, ela faz uma defesa da livre demanda, sem citar esta expressão, que é recomendada não só por ela e outros profissionais de saúde, mas pela OMS e pelo ministério da Saúde também.

"A preocupação com os horários é a maior adversária do leite materno que conheço. As famosas três horas ainda recomendadas entre as mamadas são fruto da ignorância e da falta de respeito pelos ritmos internos da espécie humana. São cansativas e acabam sendo confusas para as mães, que tentam não se equivocar durante a criação de seus filhos pequenos. O mundo ocidental está cheio de "opinólogos" diplomados que sufocam a essência feminina e seus esforços para se revelar por meio de um fato tão mágico e simples como é o leite que jorra dos seios de uma mulher."

Enfim, se dar de mamar significa nutrir, acolher e amar nossos filhos, se isso deveria ser feito de acordo com suas necessidades - e não com as nossas, pois somos nós, adultos, que vivemos no mundo do relógio e das obrigações com hora marcada -, por que uma mulher não poderia amamentar o seu filho (bebê ou criança) fora de casa?



(Publicado originalmente no Peripécias de Cecília, Fofices de Clarice em 29 de abril de 2011)

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Os Melhores De 2011: Roberta - Piscar de Olhos


Com 3 anos tudo melhora. Mesmo.

Comunidade, a festa foi um arraso.
Já está virando uma chatice isso de eu começar o post agradecendo aos comentários, mas dessa vez vocês salvaram minha vida, minha pele, minha reputação!
Abri todos os links, amei todos os pitacos e copiei várias idéias. Quer dizer, tive que me limitar àquelas idéias executáveis pela turma do básico 1, nível a qual pertenço.
Eu vou contar tudo da festa, falar do modus operandi e postar várias fotos, só preciso de algum tempo pra me organizar.
De tudo, ficou a certeza que vou continuar persistindo nos caminhos do ”Faça você mesma”, ainda que a natureza tenha me cerceado os talentos e me presenteado com duas mãos esquerdas.
***
Gente, pessoas, meu filho tem 3 anos! Três ponto zero, três!
Eu escrevi um post loooongo de aniversário, mas achei que o texto ficou tão babão, tão meloso, tão “meu filho é perfeito e a culpa nem é minha” que resolvi não publicar o tal do texto de aniversário, poupando-as, assim, de minha corujice crônica.
Mas sabe o que é?  Eu ando apaixonada, mega envolvida, e super em lua-de-mel com a maternidade.
Não que eu já não amasse ser mãe: vide blog, vide vídeos, vide tudo. Mas, cumadis, ser mãe de uma criança de 3 anos é OUTRA coisa. Colegas: é to-do um outro conceito de maternagem.
Sabe quando te dizem que aos 3 anos tudo fica bem mais fácil e você já não acredita (porque já te enrolaram aos 3, aos 6, aos 12, aos 18 e aos 24 meses)?
Pois eu tenho boas notícias, senta aqui.
Crianças de 3 anos são seres fisio e psicologicamente capazes de:
- Dormir bem;
- Comer bem;
- Ir ao banheiro fazer xixi sem que você nem tome conhecimento (mas se for cocô você vai ser chamada, querida, that’s your job);
- Não fazer birra, nem dar piti (pelo menos não na proporção vista na versão 2.0).
- Voluntariamente exclamar frases de impacto & responsa, tais como “você é minha vida” e “vai mais devagar com a bicicleta, mamãe.”
- Desenvolver um olhar quase podre de tão maduro, acompanhado do gesto de “ajeitar a franja”. Um exemplo: você (a mãe) está chorando. Ele se aproxima e diz “tá tudo bem, mamãe, tá tudo bem”, enquanto ajeita sua franja. Você leu direito: E-LE A-JEI-TA-A-SU-A-FRAN-JA. E todo mundo sabe que ajeitar a franja de pessoa chorosa é linguagem corporal de seres elevados e iniciados nos caminhos da compreensão, maturidade e empatia.
- Também já são capazes de se aprofundar nos mares da auto-análise. Exemplificando: ele está chato, percebe que está chato e  pergunta “Mamãe, eu tô chato porque eu tô com sono, né?”. Chama-se auto-conhecimento.
Eu sempre notei uma diferença intrigante entre a calma e a desenvoltura de uma mãe de criança mais velha, quando comparada à uma mãe de criança mais nova. Pode perceber. Seria pelo fato de que a mãe de criança mais velha dorme, não gasta dinheiro em fralda e tem a franja ajeitadinha pelo filho? Ou seria pelo fato de que o filho, outrora imaturo e serelepe, é agora sábio, maduro e centrado, feito o Mestre dos Magos?



baixinho, sábio e maduro: meu filho é o mestre dos magos
***
Claro que não é sempre assim, o rapaz também tem seus momentos de rasgador de dinheiro e comedor de moedas. Mas eu estou realmente impressionada e orgulhosa com o nosso trabalho até aqui. Nosso, meu e do pai. Uma sensação ímpar, de estar finalmente colhendo os frutos do que plantamos.
E é esse que começa a ser o diferencial quando os filhos vão crescendo. As culpas, dúvidas, questionamentos, vão sendo substituídos pela incrível certeza de que alguma coisa muito certa você anda fazendo.
Sabe quando o bolo fica uma delícia, apesar de você não ter seguido à risca a receita?


oi, eu sou um bolo sem receita
Claro que questionar é sempre bom e procurar novos caminhos é louvável. Mas sinceramente? Imperfeições são essenciais.  E na maternidade elas tomam forma de parto, amamentação, creche, escola, alimentação e tantas outras escolhas que fazemos.
O filho da gente, ele é um somatório de genética, acertos e erros.
E se você me perguntasse se eu voltaria atrás de qualquer erro cometido ou qualquer escolha que eu tenha feito, eu te responderia:
Depende. Se eu voltar atrás e fizer tudo certo, corro o risco de mudar o resultado final?
Porque se existe o mínimo risco de mudar um fio de cabelo sequer, então a minha resposta é não. Nunca. Jamais.


somados erros e acertos, o resultado foi esse



(Publicado originalmente no Piscar de Olhos em 1 de novembro de 2011)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Os Melhores De 2011: Diário Dos Três Mosqueteiros


Dia dos "pães" (pais + mães) - a 2a vez é mais fácil (Diário da Mirys)

Dizem que a 1a vez, de qualquer coisa, a gente nunca esquece. Não sei se isso é verdade, mas digo que quando você encara um problema muito muito grande, os "segundos" são mais fáceis: o segundo ano, o segundo aniversário do filho, o segundo aluguel, a segunda viagem, a segunda...

No ano passado, foi muito difícil passar pelo "dias dos pais" e todas as comemorações que se fazem naquela semana. Mesmo já tendo passado 7 meses de viuvez. Uma sensação enorme de vazio, de falta, de saudade, de "e se", de "será que eu estou dando conta?"... Tudo misturado e nenhum sentimento bom para dar uma quebrada na monotonia.

Nesse ano, foi tranquilo. Já me assumi no papel de pai e mãe. Já me acostumei com as confusões que as crianças fazem. Já me habituei a ter que responder perguntas do tipo "o pai não pode vir porque está trabalhando?".

Para me ajudar (mesmo!!!), a festinha da Nina foi na quinta e do Guigo, na sexta. E esqueceram de colocar o bilhete na agenda avisando da festinha. Quando cheguei para buscá-la, vi um monte de pais, saindo orgulhosos da escola, sacolinhas com lembranças numa mão e o filho na outra... Tranquei o carro, saí correndo, vesti meu melhor sorriso e procurei minha pequena pela quadra de esportes. "Mãe, por que você demorou tanto???" "Ôh, meu amor, me desculpa... a mamãe estava trabalhando até agora...(verdade)... mas, ESTOU LOUCA PARA VER O SEU DESENHO!!!". Tinha que ter um desenho! Sempre tem!!!

Acertei! Ela me puxou pela mãozinha e me levou até o painel da classe dela. Tinham vários super-heróis pintados pelas crianças, com o nome dos filhos numa lista, ao lado. Mas, não precisei nem perguntar qual daqueles "super-heróis-pais" eu era... só tinha UM pintado inteiramente de COR-DE-ROSA!!!!

Para o alto e avante!
Rsrsrsrsrsrs


(Publicado originalmente no Diário Dos Três Mosqueteiros em 31 de agosto de 2011)

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Os Melhores De 2011: Blog Mamíferas


Mãe, Mulher e Tudo Mais!

Eu acho bem engraçado quando ouço uma mãe batendo no peito e levantando a bandeira: “eu não quero ser só mãe!”. Fico me perguntando onde é que a gente foi buscar essa idéia tão equivocada de que, pra ser uma coisa, tem que deixar de lado todo o resto.
Nós somos pessoas. Antes de mais nada, nascemos pessoas e seremos pessoas para sempre – bom, a maioria pelo menos.  Somos gente, somos humanos. E aí, dentro disso, cabe tudo, tem espaço pra tudo. Tem espaço pra ser mãe, pra ser filha, irmã, amiga, profissional, mulher, namorada, companheira, parceira e tudo o mais que a gente quiser. Não tem que dividir. Bacana mesmo é somar.
Eu não sou só mãe. Ser mãe é um negócio importante pra burro na minha vida, não há dúvidas. Mas nem que eu quisesse, daria pra esquecer todos os outros papéis. Eu não consigo, e sinceramente? Acho que ninguém consegue. A vida está aí, caminhando, ela não pára. Exige da gente o tempo todo, e o que a gente faz – alguns com mais maestria, outros mais desastradamente – é equilibrar os papéis.
É por isso que eu não tenho medo de me entregar inteiramente à maternidade, exercer com intensidade meu papel de mãe. Não tenho medo de me perder de mim mesma na maternidade, porque é exatamente o contrário: ser mãe me ajuda a me encontrar, a me conhecer melhor, a evoluir, a crescer. Assim como tudo mais a que me entrego inteiramente, de coração aberto.
E todos os dias, os papéis que exerço se entrelaçam, confundem-se e transformam-se entre si. Como mãe, aprendo algo que faz crescer a filha. Como esposa, vivencio um crescimento que me faz uma amiga melhor, uma companheira mais inteira. No trabalho, a profissional descobre algo que faz amadurecer a irmã, a parceira, e assim por diante. Todas são parte de mim. Para que compartimentar?
No final das contas, a gente é o que é. Se perdesse menos tempo rotulando, neurotizando e tentando definir o que dispensa explicação, estaria mais livre pra viver a vida, tirando o máximo de cada experiência. Descobriria a delícia de deixar que as vivências se confundam, transformem-se, melhorem umas as outras. E no final das contas, o que sobraria seria alguém mais inteiro, um ser humano melhor em tudo o que faz, em todos os papéis que exerce.
///
Imagem: arquivo pessoal




(Publicado originalmente no Mamíferas em 9 de março de 2011)

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Os Melhores De 2011: Renato - Diário Grávido


Vírgula pai

Lucia descobriu um botão que aumenta a chance de seus pedidos serem atendidos em pelo menos 43,7%: vírgula pai. Vamos dizer que, hipoteticamente, ela queira leite com chocolate:
"Faz leite com chocolate pra mim, PAI?"
Pronto, to quase fazendo. Aí ela apela pro nível dois:
"Faaaaaaz, Paaaaaaai?"
Pronto. Vírgula pai é como o Remy de rattatouille, é o comando que transforma pai em marionete.
Quando ela quer colocar o nível de persuasão no máximo, ela apela pro nível 3, o defcon final, o equivalente a um parasita cerebral escravizador:
"Papai (r)enato, faz chocolate?" Variações incluem "meu papai" "papaizinho querido" e "pai você é engraçado"

Pronto, tá tudo dominado. Será que algum dia ficarei imune a esses pequenos encantos?
"Pai, empresta a chave do carro"
"De jeito nenhum filha, você é muito nova pra isso"
"Ah papaizinho querido, empresta, só um pouco..."
Corta para o pai correndo pela garagem atrás do carro, se perguntando não só como ela alcançou o pedal, mas também como conseguiu sair da vaga.

Vírgula pai

Lucia descobriu um botão que aumenta a chance de seus pedidos serem atendidos em pelo menos 43,7%: vírgula pai. Vamos dizer que, hipoteticamente, ela queira leite com chocolate:
"Faz leite com chocolate pra mim, PAI?"
Pronto, to quase fazendo. Aí ela apela pro nível dois:
"Faaaaaaz, Paaaaaaai?"
Pronto. Vírgula pai é como o Remy de rattatouille, é o comando que transforma pai em marionete.
Quando ela quer colocar o nível de persuasão no máximo, ela apela pro nível 3, o defcon final, o equivalente a um parasita cerebral escravizador:
"Papai (r)enato, faz chocolate?" Variações incluem "meu papai" "papaizinho querido" e "pai você é engraçado"

Pronto, tá tudo dominado. Será que algum dia ficarei imune a esses pequenos encantos?
"Pai, empresta a chave do carro"
"De jeito nenhum filha, você é muito nova pra isso"
"Ah papaizinho querido, empresta, só um pouco..."
Corta para o pai correndo pela garagem atrás do carro, se perguntando não só como ela alcançou o pedal, mas também como conseguiu sair da vaga.























(Publicado originalmente no Diário Grávido em 22 de agosto de 2011)

domingo, 29 de janeiro de 2012

sábado, 28 de janeiro de 2012

Os Melhores De 2011: Camila - Sobre Fraldas


Dica do dia: CD Pequeno Cidadão



Música boa para os ouvidos nunca é demais, não é? Não sei se vocês conhecem esse projeto "Pequeno Cidadão", mas eu, meu marido e Olívia escutamos MUITO, desde que ela era recém-nascida! Quando roqueiros se juntam pra fazer música pra criança eu acho que sempre sai coisa boa. E este não podia ser diferente. Ex-tecladista da Gang 90, Taciana Barros,  Arnaldo Antunes (e sua voz que eu AMO!), Edgar Escandurra(ex-Ira!) e mais Antonio Pinto (compositor e filho do Ziraldo) se juntaram para lançar o álbum “Pequeno Cidadão”, com composicões que fizeram para seus próprios filhos. Eles chamam de “MPC – Música Psicodélica para Crianças”. 

As músicas são fofas e as crianças cantando junto é a coisa mais linda! São 14 músicas que têm letras que falam dos primeiros "problemas" existenciais do ser humano como: a difícil hora de largar a chupeta e a obrigação versus diversão. Ainda, são cantados temas como a dor-de-cotovelo e problemas de criança que podem ser carregados até a idade adulta. Além de conscientizar, Pequeno Cidadão coloca as crianças em contato com estilos que vão do pop ao forró.  Vocês podem conferir algumas músicas no MySpace do projeto clicando aqui.

ps - A minha música preferida é "O sol e a Lua" e meu marido ama a "Bonequinha do papai". Olívia adora todas! hehe


(Publicado originalmente no Sobre Fraldas em 27 de junho de 2011)

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Os Melhores De 2011: Lígia - Cientista Que Virou Mãe


Para Clara, com amor, em seus primeiros passos

Quando uma menina e um gato se encontram pela primeira vez

Esse vídeo foi mandado pela Liloca, uma querida amiga que acompanhou toda a minha gestação e tem acompanhado também o desenvolvimento da Clara. Ela assistiu e lembrou da Clarinha...
Aí mandou pra mim e eu, nessa fase ocitocinada em que me encontro, chorando até com a musiquinha de início do Windows, me emocionei vendo a menininha. Todo o vídeo é lindo, recheado de simbolismo, mas o que me tocou mesmo foi ver a menininha caminhando. Pequenininha e caminhante. Acho que é porque a Clara tá quase caminhando...
E é um grande marco essa fase de deixar de ser um ser engatinhante para ser um ser caminhante... Depois do primeiro passo dado, da perspectiva sobre duas pernas, nunca mais se vê o mundo de outra forma. Tudo passa a ser possível, tudo passa a ser quase-alcançável, lugares passam a pedir para serem descobertos, o que antes não era visto agora passa a ser objeto de investigação. Estou feliz porque ela está chegando nessa fase. Mas tenho que confessar: me dá uma coisinha aqui dentro...
Ela anda cheia de novidades incríveis dessas que fazem uma mãe babar. Hoje apareceu soltando beijos com a mão e imitando que está comendo. Pega uma comidinha imaginária, leva à boca e mastiga, depois pega de novo e me dá, dividindo o banquete virtual. Mas o que tem me marcado é o fato dela já ficar em pé sozinha e soltar as mãos, se equilibrando e testando sua própria habilidade. Hoje, ensaiou os primeiros passinhos, indo do pai dela em direção a mim.
Firmar o passo é uma coisa muito importante.
É um momento de autoconfiança imenso. De "eu posso", "eu consigo", "olha que coisa incrível que eu estou fazendo".
É um momento muito simbólico.
Afinal, caminho longo sempre começa com o primeiro passo.
Eu já ando meio emocionada com essa dela estar quase caminhando. Depois de ver esse videozinho lindo aí, tô aqui em estado pastoso. Ela está crescendo...
Todas as vezes que ela se equilibra sozinha, comigo ao lado com os braços ao redor, eu SEMPRE penso: "assim será para sempre".
E que assim seja.
Estarei com você no seu primeiro passo, filha. E em todos os demais. Mesmo que eu não esteja presente fisicamente. Mesmo que você não me veja.
Que o seu caminho seja sempre claro, como você. Se encontrar obstáculos, é porque será capaz de transpô-los. Se não encontrar obstáculos e parecer fácil demais, desconfie, talvez ele não te leve a nenhum lugar interessante. Se não encontrar um caminho, me chame que te ajudarei a abrir um, não tenho medo do desconhecido. Sobre as pedras que estiverem nele, não se esqueça do Fernando Pessoa: vai recolhendo, construa uma casa. Se você se perder por algum deles, pode contar comigo, te ajudarei a achar outro. Perder-se também é caminho, como nos ensinou Clarice Lispector. Que seus passos te levem para o bem. Que sua passada seja sempre segura e firme. Se faltar segurança, lembre-se sempre que estou com você. E se você cansar, meu colo estará sempre pronto. Se o pé machucar, te ajudo a curar. Não se fixe no lugar onde quer chegar, atente para o passo; pode ser que algo no caminho te aconteça e faça com que o lugar de chegada não seja mais atrativo. Se seus passos forem bem dados, ainda assim você olhará pra trás e se orgulhará deles.
Você está quase andando sozinha, minha filha.
Uma vez que começar, não deixe nunca de caminhar.
"A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar". Eduardo Galeano
Ah sim, e por favor. Quando for comprar um sapatinho novo pra embelezar o passo, me chama que quero ir junto, tá?

Com amor,

Mamãe




(Publicado no Cientista Que Virou Mãe em 17 de agosto de 2011)

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Os Melhores De 2011: Beatriz - Mãe da Cabeça Aos Pés



Abra seu próprio negócio

Pedalar na ergométrica, cozinhar algo diferente, comprar o que está faltando, pagar umas contas, fazer as unhas, dar atenção para o filho, contar uma historinha para ele antes de dormir, namorar o marido, tomar um banho demorado, levar a dieta a sério... Difícil explicar quando a gente não consegue fazer tudo que quer fazer, mesmo sabendo que é totalmente compreensível essa falha. Para dizer claramente, nem é falha. É normal. É ser uma mulher nos dias de hoje, mãe, esposa, dona de casa e... profissional. Entre outras personagens que cabem no nossa calçada da fama, que de glamour não tem nada!
Mas que mania temos de justificar essa falsa "falha", esse traço recorrente da nossa rotina, quase impossível de se excluir. Uma mania besta, mas necessária para nossa autoestima ficar ali no lugar dela. É como dizer para ela: "Fique aí quientinha, não se meta nesse assunto, está tudo certo". Acho que não. Acho que justificando cada passo que damos acabamos fazendo algo parecido com o que a funcionária que sempre chega atrasada faz quando chega mais uma vez atrasada, descabelada, e dá de cara com a chefe arrumadíssima, pontual, poderosa e feliz... "Ai, senhora Autoestima, meu filho está doente e eu estou sem babá...". Chega de desculpas querida funcionária!
Aliás, peça demissão e abra sua própria empresa, focando no seu talento mais verdadeiro. Lá, faça suas regras prevalecerem e não permita que ninguém, nem você mesma acabe com você por causa de uma tarefa mal feita ou inacabada no prazo correto. Contrate a autoestima para gerenciar aquilo que não der conta e pague-a bem para isso, deixando bem claro qual é o lugar dela. Saia mais cedo para ter tempo para você mesma... E não justifique isso para quem quer que seja!!!
Se estiver pensando "puxa, preciso ganhar bem para isso", pense "preciso disso para ganhar bem". Pelo menos, quando sua chefe ou funcionária é sua própria autoestima, seus afazeres são compromissos dentro e fora de casa, e a empresa na qual você trabalha é sua vida, acho que é preciso mesmo comprar essa tal empresa e passar a valorizar a qualidade do que se vive, se faz e se sente frente ao dinheiro que pode vir. Até porque o capital mais importante, nesse caso, é a felicidade, e essa, minhas caras, é a moeda que está sempre em alta. Para fazê-la render, melhor arriscar na bolsa de valores do que mantê-la em poupança que, entra ano e sai ano, continua te deixando com a sensação de que você não acumulou nada! Arriscar-se aqui é tentar ser a dona do próprio negócio e não deixar especuladores cheretarem o que você faz ou não para ele ir adiante. Medo a gente sempre tem. Mas vai dizer que tomar conta de si mesma sem dar satisfação a ninguém (incluindo você) não é o sonho de qualquer mulher... Vale tentar um dia.

É impossível não lucrar. Porque o mercado para mulheres bem resolvidas, práticas e felizes é o mais valorizado do mundo. Pelo menos, para nós mulheres!



(Publicado originalmente no Mãe da Cabeça aos Pés em 14 de outubro de 2011)

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Os Melhores De 2011: Daniele - Balzaca Materna



Festividades escolares, quem curte?

Ilustração daqui


Tem gente que adora os eventos escolares: reuniões, entrega de portfólios, festa disso e festa daquilo. Tem gente que não curte, mas vai pensando no filho. Tem gente que não curte e simplesmente não vai a nenhuma delas.

A minha mãe sempre mandava meu pai, que ia lá e fazia bonito com sua kodak na mão, mas eu sentia falta dela. Queria muito que ela estivesse ali e visse o resultado do meu esforço, pelo menos uma vezinha. Queria que ela torcesse descabeladamente por mim quando eu estivesse em quadra. Enfim...pai e mãe fazem falta. 

Pois bem, esse post não é sobre mim.

Minha filha tem uma amiga que desde sempre me chama atenção. Aqueles casos inexplicáveis de empatia, sabe como é? Acho um barato o jeitão dela descolado, é super engraçada, simpática e super independente. Vai e volta da escola sozinha numa bicicleta, por morar perto. Sei muito, muito pouco da sua vida. Não pergunto, porque sei que, em sendo esperta como é, certamente se sentiria constrangida com perguntas inoportunas.

O que sei é que ela não mora com a mãe, é criada pela avó.

Em julho deste ano, no fechamento do primeiro semestre, a professora de música resolveu fazer uma apresentação pra mostrar aos pais como os alunos estavam envolvidos e como estavam evoluindo. Paulinho saiu mais cedo do trabalho e fomos lá prestigiar a Bia.

Havia muitos pais e notei que ela estava inquieta (mais que o de costume) procurando por entre aquelas cabeças orgulhosas um rosto que lhe fosse familiar. Vai que a avó ou o tio ou alguém pudessem ter comparecido, né?

Quando terminou a apresentação, fomos fazer aquele auê básico em cima da filha e dela também, até que ouvimos uma coisa que deixou meu coração doendo: "vcs sempre vem ver a Bia, né? - aqui tentou disfarçar a melancolia, e completou "acho isso tão legal!". Nos deu um sorriso e foi brincar.

Puxa, a mamãe patinha ficou tão triste, mas essa história vai ter um final feliz.

Essa semana, na reunião dos pais, os alunos resolveram encenar uma peça e depois veríamos um vídeo com todas as fotos de todo o semestre. Paulinho saiu mais cedo do trabalho e fomos. Dessa vez, a amiguinha da Bia estava radiante. Não só o pai tinha ido, como também a mãe.

Depois de terminada a apresentação, morrendo de fome, ataquei uns sanduichinhos muito fofos, quando sinto alguém me cutucar, era ela. "E aí? Gostou?" Balancei a cabeça de boca cheia. "Foi minha mãe que fez!!! O orgulho dela dava gosto de ver!!!

Saímos de lá felizes pela felicidade de todos eles.
E é o que eu digo: infância só tem uma e é tão importante pra eles se sentirem acolhidos e encorajados!
Presença é apoio.
E pai e mãe fazem falta.
Podem crer.



(Publicado originalmente no Balzaca Materna em 7 de dezembro de 2011)

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Os Melhores De 2011: Mari Hart - Diário de Uma Mãe Polvo



"Maria da Penha": eu fui uma.

Imagem DAQUI.


Ontem foi noticiado aos 4 ventos, o 'aniversário' de 5 anos da Lei Maria da Penha sancionada pelo ex-presidente Lula. Acho que essa lei dispensa apresentações, e apesar de estar em vigor, sabemos que ainda tem muito o que ser mudada.

Infelizmente mesmo depois da criação desta, a violência doméstica continua com índices altíssimos, mas nem sempre concretas, visto que muitas mulheres sofrem caladas impedindo estatísticas mais precisas. Os fatores são diversos, talvez o maior deles seja o medo da incapacidade de se sustentar sozinha, já que muitas destas mulheres que sofrem quietas, dependem financeiramente do marido.

E então hoje, venho aqui contar minha história pessoal. A história é longa, mesmo resumindo. Puxe a cadeira e sente comigo. Aliás, pelo que vcs podem perceber, história é o que não falta em minha vida. E não tenho medo de me expor, ao contrário. Acho que libera fantasmas, pode ajudar outras pessoas como o tema "Pedofilia" que foi abordado aqui recentemente em que muitas pessoas se abriram tb, em off, ou não. Foram diversos e-mails recebidos de mulheres agradecendo a abordagem e me contando suas histórias, o que me deixou bem feliz apesar dos pesares.  Mas quando a história envolve terceiros, é preciso cuidado na hora de contar, por isso não citarei nomes, mas para bom entendedor, meia palavra basta.

Aos 19 anos tive um namorado. Nos apaixonamos, ele veio morar comigo junto com minha família, o maior erro da minha vida, e no auge de minha imaturidade, engravidei 6 meses depois, já aos 20. Ele era 6 anos mais velho e sempre se mostrou bastante ciumento. Tinha ciúme da minha família, destratava meus amigos publicamente, e se duvidasse, tinha ciúme até do meu próprio espelho. Sempre foi motivo de brigas, pois eu tb sempre foi muito possessiva. Uma relação juvenil extremamente passional, mas na minha cabeça de uma menina como eu era, era sinal de amor. 

Ledo engano. Mal sabia eu o que era amor. No início da gravidez o príncipe se transformou em sapo. Veio o primeiro tapa na cara. O motivo!? Ciúmes. Diante de pedidos de perdão e promessas perdoei. E então, veio o segundo. Perdoei novamente já que eu revidava ferozmente. E então um belo dia eu, grávida de 6 meses, estava vestida com uma saia curta em meu trabalho, qdo ele foi me buscar, como fazia todos os dias. Além dos xingamentos impublicáveis em um blog de família como esse, veio uma surra. Uma surra por uma peça de roupa em uma mulher grávida! Surreal! Desta vez não pude revidar, pois eu só queria proteger minha barriga, onde eu gerava um filho dele. Me encolhi no chão em posição fetal a fim de proteger meu bebê enquanto apanhava. Essa foi a gota d'água. Mandei-o embora e pedi a separação.

Como sempre, ele se ajoelhou aos meus pés pedindo perdão e fazendo mais e mais promessas, mas com o apoio de minha família que até então não sabia de nada, mantive firme minha decisão. Ele se negava a ir embora, demos (eu e minha mãe) o prazo de uma noite para ele procurar um lugar para morar, mas o pesadelo não acabou. Depois de uma longa conversa clara, já com os ânimos mais tranquilos, ele concordou. Eu deveria ter achado estranho vindo dele, mas acreditei. E então, esta pessoa tentou cortar os pulsos na minha frente, dizendo que preferia morrer do que viver sem mim.

Imagina a cabeça de uma grávida vendo tal cena?! Um psicopata com uma faca na mão se cortando, poderia até sobrar para mim. Eu impedi, e fui "obrigada" a perdoar novamente por medo, mas disse que ele não moraria mais comigo, mas que poderíamos continuar juntos. Eles se mudou, e para não me perder de vista foi morar em frente ao meu trabalho, junto com um amigo, onde passava o dia inteiro me vigiando. Não, ele não trabalhava. O trabalho dele era me perseguir, vigiar meus passos, onde quer que fosse.

Um dia na casa deste amigo, estávamos sozinhos, e mais uma vez ele me agrediu pelos mesmos motivos. Agredia e em seguida se ajoelhava aos meus pés implorando perdão. Neste dia ele escondeu minha bolsa, meus sapatos e a chave de casa para eu não ir embora enquanto não o perdoasse. E então eu, então grávida de 8 meses, pulei a janela da casa de 3 andares, descendo pelo telhado, correndo risco de vida para fugir desse psicopata. Saí correndo pela rua descalça, peguei um táxi sem nenhum tostão no bolso e fui para casa onde minha mãe pagou ao chegar. E eu não prestei queixa. Por ser pai da minha filha. Pelo sonho de uma família. Pelo desejo de dar a minha filha um pai que eu não tive. Não me imaginava mãe solteira, nunca sonhei isso para mim.

O tempo passou, o bebê nasceu e ele pareceu mudar com a paternidade. Voltou para minha casa, se tornou carinhoso, atencioso, até arrumou um emprego! Milagre! Mas aí aprendi que ninguém muda de um dia para o outro. Depois de escândalos, uma nova agressão imperdoável. Estávamos na rua discutindo e eu com o bebê no colo quando ele me deu um soco na cebeça tão forte, que eu desprevenida deixei Stella escapulir de meus braços. Mas com a ajuda de seu anjo da guarda, consegui pegá-la no ar, com sua pequena cabecinha há poucos centímetros de bater no meio fio. Resolvi dar um basta definitivo. Sem voltar atrás. Meu bebê tinha 8 meses quando o expulsei de casa e então as agressões deram lugar a ameaças. Chegou ao ponto de posicionar meu bebê na janela e ameaçar jogar se eu não voltasse para ele. Disse várias vezes que iria fugir com minha filha para outra cidade e que eu nunca mais a veria.

Me perseguia nas ruas se escondendo atrás de árvores e carros. Me ameaçava de morte, dizendo que se eu não ficasse com ele não ficaria com mais ninguém. E eu tentando retomar minha vida, voltei ao trabalho-sempre com medo, e conheci um homem super bacana. Mais velho que eu, que me fazia sentir segura, protegida, amada, começamos um namoro. Por acaso ele era advogado e tomou as rédias do caso. Denunciamos o agressor que ficou impedido de se aproximar de mim, em uma época em que a lei Maria da Penha ainda não existia, exatamente no ano 2000. Me encorajou a ir até o fim, até que ele foi preso por uma noite depois da milésima ameaça. 

O novo namoro não teve muitos progressos, eu não estava preparada para um novo relacionamento e então passei exatos 3 anos de minha vida vivendo como uma criminosa, me escondendo. Andava nas ruas olhando para trás e para os lados. Não pegava mais ônibus, evitava sair, ou qdo saía era com cuidado para não ser vista. Foi quando ele viu que havia mesmo perdido e foi trabalhar em outro país. Passou 1 ano fora e foi quando conheci Ciro, meu atual marido. Ele devolveu minha auto-estima, me livrou do medo dos homens, e me mostrou o que é o verdadeiro amor baseado no respeito, admiração e paixão. Assumiu a criança como se fosse dele próprio. Se tornou um verdadeiro pai, o melhor que poderia existir apesar de bem jovem. 

Enquanto eu trabalhava, ele ia a reunião de escola. Ele limpava o bumbum dela qdo ela gritava "acabeiiii!", e se divertia com isso! Deu amor, educação, carinho, atenção a uma criança que teve sua primeira infância conturbaba pelo seu próprio genitor. Formamos uma família de verdade! E quando o "pai biológico" voltou da Europa, parecia mais calmo e conformado, apesar das investidas de reconciliação. Se justificou dizendo que era doente de amor, que havia mudado e hj eu questiono: Isso é amor!?

A mensagem final é uma só. 

Mulheres "Marias da Penha" do Brasil! Há vida após agressões, ameaças, seja física ou emocional. A lei está do nosso lado, embora tenha muitas falhas, ainda é o melhor caminho. Não se calem, DENUNCIEM! Quem agride uma vez, pode agredir dez e pode não ter fim. Ou um fim trágico e não feliz como foi o meu. Não se iludam com a idéia de amor incondicional e arrebatador, pq amor não é doença, ao contrário, é saúde! Não se intimidem diante de uma força física maior do que a sua, pq a força maior está na nossa mente e é ela que devemos usá-la a favor de nós mesmas.

Tenho que ser justa. Passaram-se 11 anos e hoje esta pessoa refez sua vida, temos um contato mínino e necessário, por um bem em comum, nossa filha que idealizou um pai herói e hoje sabe bem quem é seu pai, com seus defeitos e qualidades(?). Raramente ele procura a filha, não paga pensão e se mudou de estado. Conversamos, ele frequenta minha casa qdo vem ao RJ (ressalto novamente: raramente), mas o passado obscuro continua presente e faço questão de lembrá-lo sempre que preciso.

A idealização de família de margarina não existe, mas podemos nos reencontrar com novas pessoas, novas tentativas, abrindo o coração, sem traumas. E hj, na semana em que se comemora a criação desta lei, o que desejo a todas as "Maria da Penha" do Brasil, é o que eu tive. Felicidade. Renovação. Plenitude. Realização, Sem medos. Recomeçar do zero. E acima de tudo CORAGEM. Quem decide nossas vidas somos nós mesmas, ninguém pode mandar na nossa felicidade. Se você conseguiu me ler até aqui, esse é meu recado de hoje.

"Se o destino não tiver os mesmos planos que eu... ele que mude!"


Leia mais sobre a lei Maria da Penha aqui neste fantástico texto de Frei Betto. Antigo, mas atual.

Para denunciar, ligue 180.



(Publicado originalmente no Diário de Uma Mãe Polvo em 8 de agosto de 2011)

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Os Melhores De 2011: Taís - Ombudsmãe



Pais x Professores - quem perde são nossos filhos.



Pais x Professores - quem perde são nossos filhos.

Até há pouco tempo, filhos eram criados meio que em comunidade. Era a bronca do pai, o olho da vizinha quando a mãe estava fora, o colo dos avós, os conselhos das tias, as iniciações com os primos, as brigas e brincadeiras na rua, os puxões de orelha da professora e do inspetor de alunos.

Além do convívio próximo com todas estas pessoas, havia também uma espécie de código de conduta que todos conheciam e faziam valer. Tinha que respeitar os mais velhos; apanhou na rua apanhava em casa; quem não obedecia ficava de castigo; o irmão mais velho resolvia as brigas; e o pai nunca podia saber de nada ou ele matava um.

Não preciso dizer que hoje tudo mudou e não foram só os códigos que ficaram confusos. Vivemos num certo estado de solidão familiar, isolados por muros, ruas onde não se brinca e o concreto dos apartamentos. A extraordinárias  tarefa de se criar uma criança, acabou ficando restrita a 2 agentes: família e escola.

Família, leia-se pai e mãe. Às vezes só pai, muitas vezes só mãe e com frequência representados, grande parte do dia, por empregada, televisão ou videogame.

Escola, leia-se escola mesmo. A instituição educativa onde nossos filhos hoje entram usando fraldas e só saem quando já usam camisinha. Alguns chegando a passar quase mais tempo na escola do que em casa.

Agora vem a dúvida: se somos só nós, pais e educadores diante desse mundo caótico, arregaçando as mangas para criar gente do bem, por que nos entendemos tão pouco?

Recentemente, fui convidada para conversar com um grupo de professores de um curso de pós-graduação que estuda as relações com a família. A ideia era transmitir a eles meu ponto de vista de mãe. A visão do lado de cá.

A conversa foi muito boa e profícua em todos os sentidos. Estava diante de um grupo de educadores desarmados, abertos para escutar, a fim de entender porque esta troca não acontece com mais frequência no dia-a-dia da escola. Profissionais preocupados com o imenso abismo que se abriu entre escola e família e que nos impede de escutar, falar a mesma língua e entender.

Um ponto curioso da nossa conversa, foi quando listei o que os pais acham que os educadores pensam deles. Apresentei uma lista que incluía itens como: não nos escutam, vivem na defensiva, transferem para nós responsabilidades que não são nossas, acham que não estamos presentes e que não impomos limites, acham que não estamos nem aí e etc. Nesta hora, um professor pede a palavra e diz, sorrindo, que eles haviam elaborado a mesma lista na semana anterior, só que com o que os professores acham que a família pensa deles. E a lista era praticamente a mesma!

Curioso e triste. Porque como principais referências na formação dos nossos filhos, deveríamos ser mais cúmplices um do outro. Mais abertos para ouvir, para dialogar, para trocar e confiar.

Não a confiança cega de outrora, quando professores podiam até bater para impor respeito e os pais chamavam de burro o filho que tirava notas baixas. Essa, graças aos novos tempos, não volta mais.

Falo de uma confiança culta e sadia. Confiança de quem se conhece e se cobra, porém sabendo das qualidades, das dificuldades e dos limites de cada um.

Confiança de quem assume que ninguém é dono da verdade. E que estamos todos tentando sobreviver neste mundo em rápida transformação, sem as referências do passado e sem ideia alguma de como será o futuro.

Assim como nós pais às vezes nos perdemos (a Supernanny que o diga), nem sempre a escola tem a solução pronta e certa para os problemas. O importante é estarmos abertos para discuti-los, haver transparência, honestidade e a certeza que juntos, somos muito melhores que separados.

Precisamos reconstruir as pontes que caíram no furacão das mudanças e nos colocaram em lados opostos. Porque no meio, estão nossos filhos.

Sair da defensiva e dialogar, pode ser um começo.


(Publicado originalmente no Ombudsmãe em 26 de junho de 2011)

Os Melhores De 2011 - Parte IV

Continuando nossa série com os melhores textos e blogs de 2011, nossos convidados dessa semana serão:











Os Melhores De 2011: Mariana - Pequeno Guia Prático Para Mães Sem Prática



:: Hoje eu acordei meio Carrie Bradshaw


É voltar a trabalhar, e a pessoa é tragada pelas fantasias mais delirantes de profissional de sucesso as seen on TV ---> acompanhem.

Aconteceu que eu abandonei o home office e me joguei com força nessa coisa de firma. Com a devida composição corporativa: a base na cara, a roupa de mulherzinha , o crachá pendurado. O cafezinho de máquina. O almoço com os colegas. As fotos dos filhos no celular (quem nunca?).

Hoje eu estava atrasada e não tomei café da manhã. E ali, rumo ao trabalho, subindo as escadas do metrô e chegando naquela rua cheia de executivos, não sei bem o que me deu, mas eu me senti assim, tão novaiorquina! E achei que seria podre de chic entrar em um café correndinho, pegar um cappuccino pra viagem e caminhar pela Av. Faria Lima, toda cosmopolita, bebericando em um daqueles copões de isopor. Porque profissional de sucesso é assim: toma café na rua enquanto anda apressada para o trabalho, correto? Pelo menos foi isso que o cinema norte-americano me ensinou.

Então lá estaria eu, uma mulher independente, uma mulher segura de si, com seu cappuccino e seu trench coat comprado em Paris (na feira, por 15 euros, mas quem precisa saber?), se preparando para mais um dia de trabalho. Praticamente a Carrie Bradshaw - mas uma Carrie usando All Star em vez de Jimmy Choo, porque eu sou pobre cool, tá gente? (Eu tinha falado "roupa de mulherzinha", é? Bom, essa parte era mentira, mas todo o resto é verdade!)

Carrie. NY. Sucesso. Glamour. Cappuccino.

Pois bem. Pensando em tudo isso, Carrie NY Sucesso Glamour, entrei em um café e fiz meu pedido. Mas café ali, na Faria Lima, colado no metrô, só tinha mesmo o Frans Café (choque de realidade).

Aí paguei inacreditáveis DEZENOVE REAIS por um cappuccino médio e um queijo quente magro e pálido.

Aí esperei inacreditáveis DEZ MINUTOS pelo pedido.

Aí andei quatro quarteirões QUEIMANDO OS DEDOS naquela PORRA daquele cappuccino cheio até a boca, com sua tampa ineficiente e a bebida pelando escorrendo pelas bordas. Atrasadérrima, tive que andar . de . va . ga . ri . nho . equilibrando o copo, parando a cada quarteirão para enxugar os respingos ferventes com lencinhos de papel que eu tirava desajeitadamente da bolsa, enquanto tentava não tombar demais o sanduíche que levava em um saco plástico. Despejei um tico do cappuccino no canteiro mais próximo, enrolei os papéis molhados e sujos no copo para tentar evitar mais respingos, e finalmente adentrei o meu elegante ambiente de trabalho - a passos trôpegos, queimada, mulambenta e cheirando a café, putaquepariu. Isso nunca acontece nos filmes!

Não pode haver glamour em um mundo onde existe o Frans Café, fica a lição.

De mais a mais, tenho certeza absoluta que se padarias houvesse em NY, neguinho não tinha essa frescura de cappuccino no meio da rua. Aqui em São Paulo, dona Carrie ia era se sentar no balcão da padoca, pedir um pão na chapa e uma média em copo de vidro, trocar uma ideia com o chapeiro e seguir feliz para o trabalho, chupando a balinha de hortelã que viria de troco. Com sorte, ainda seria minha colega de baia lá na firma, já pensou?

E aposto meu trench coat francês que ela só andaria de All Star.
(Publicado originalmente no Pequeno Guia Prático em 26 de outubro de 2011)